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as muitas faces de um trauma e kimmy schmdit


TW: Esse post contém menções de TEPT, abuso, depressão e problemas mentais em geral. Se você não se sente confortável com os temas, recomendo que evite a leitura. 

Eu tinha mais de vinte anos de idade quando ouvi o termo "TEPT" pela primeira vez. De certa forma, compreendia que eventos traumáticos poderiam ocasionar reações adversas, mas nunca fiz a conexão entre minhas próprias experiências e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

E a culpa disso talvez seja a maneira que fomos condicionados a acreditar que existe um comportamento muito específico a ser desempenhado por quem sofre com problemas de saúde mental. Quando pensamos em depressão, a primeira imagem que nos vem à mente é de uma pessoa fragilizada e sem forças para levantar-se da cama. Quando pensamos em trauma, logo supomos que a pessoa se tornou incapaz de suportar qualquer aspecto da vida.

Por não discutirmos tais questões publicamente, nossos poucos "exemplos" são sempre pautados nos extremos de tais condições. Foi assim que acreditei que não havia nada de errado comigo por anos. Se eu não estava completamente debilitada e presa à minha cama, o que estava acontecendo comigo não poderia ser tão ruim, não é?

Esse pensamento de "nada pode estar realmente tão errado comigo" quase teve um desfecho bem trágico. Por sorte, eu estava cercada de outras pessoas que conseguiram reconhecer os padrões nocivos do meu comportamento e me direcionaram em busca de ajuda.

Flash forward para alguns anos no futuro: com a ajuda de terapia e acompanhamento psiquiátrico, finalmente sinto que estou compreendendo as dimensões complexas da minha saúde mental. Me tornei uma pessoa mais indulgente comigo e sinto que estou retomando o controle de diversas áreas esquecidas da minha vida.


Foi nesse cenário de cura e progresso que me deparei pela primeira vez com Unbreakable Kimmy Schmidt. Seguindo minha receita de somente consumir entretenimento leve, uma comédia comandada pela Tina Fey e estrelando a Ellie Kemper parecia ser uma aposta certeira.

Logo nos primeiros minutos, somos apresentados à Kimmy Schmidt (Kemper), uma mulher que foi sequestrada em sua adolescência e mantida contra sua vontade em um bunker. Sei que a premissa parece sombria, mas o seriado entrega tantas piadas em um curto espaço de tempo que é fácil esquecer a realidade sinistra que a protagonista viveu por anos.

No decorrer da primeira temporada, somos relembrados de maneira muito sútil das tribulações que ela passou em seus anos em cativeiro. Muitos dos lembretes ocorrem através dos sintomas comuns de TEPT: terrores noturnos, reações viscerais a acontecimentos que não apresentam perigo real, gatilhos inexplicáveis (o medo de velcro) e mecanismos de enfrentamento (contar até dez para suportar situações desagradáveis).

De repente, o seriado tornou-se real demais para mim. Não passei pelo mesmo trauma da personagem, porém, eu conseguia entendê-la muito bem. Em certo ponto da minha vida, outros me descreviam como "tão feliz que chega a ser irritante". E como pode alguém tão feliz sofrer com depressão? Como pode alguém que está sempre vendo o lado bom da vida ser uma pessoa traumatizada?



Unbreakable Kimmy Schmidt me proporcionou uma protagonista com a qual eu conseguia me identificar. Ela coexiste com a experiência terrível que vivenciou e seu amor inesgotável pela vida. Essa história é um ótimo exemplo de que problemas mentais não se manifestam em preto ou branco. Qualquer um, independente do humor atual, pode estar enfrentando uma batalha interna que desconhecemos.

Conviver com TEPT não é fácil. Mas acho que minha jornada até o diagnóstico foi tão complexa quanto é lidar diariamente com o transtorno. Por isso, acredito que é importante valorizarmos mais narrativas como a de Kimmy, É necessário falarmos mais abertamente sobre saúde mental. Talvez, assim, possamos finalmente entender melhor as dimensões de tais transtornos e aprender a celebrar toda a vida que ainda existe em nós.

Afinal de contas, Unbreakable! They alive, dammit! It's a miracle!

Imagens: Netflix/Giphy
Mia Fernandes
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