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resenha: logan (2017)


Há uma diferença muito clara entre os filmes da seção Disney da Marvel e a seção que pertence à 20th Century Fox – aliás, uma não; um monte. A principal delas está atrelada à qualidade dos seus filmes, e quanto a isso não restam dúvidas.

A Fox tem sido responsável pelo segmento X-Men da Marvel desde muito tempo atrás (e digo isso considerando que eu era apenas uma jovem criança quando o primeiro filme dos X-Men saiu). Naquela época, os filmes cujos protagonistas eram Wolverine, Vampira, Tempestade, Jean Grey, Ciclope entre outros, surgiu com um tipo de inovação que chamou a atenção de verdade. Enquanto escrevo esse texto, por exemplo, tento me lembrar de outro filme sobre super-heróis que tenha sido tão inovador quanto em relação a efeitos especiais e cenas de ação com cara de terem sido caríssimas, lançado na mesma época, mas não me consigo me recordar (é claro que já havia filmes do Batman acontecendo antes dos filmes do X-Men, filmes famosíssimos e tudo mais, mas não tem como comparar, não é mesmo?).


O sucesso desse primeiro filme dos X-Men rendeu mais dois filmes sobre esse arco e, mais recentemente, outros três. Também rendeu spin-offs como o de Wolverine, com dois filmes muito similares aos da franquia X-Men, além do agora recém-lançado chamado apenas de Logan. Mas já voltamos a falar sobre esse. Falhas em filmes de super-herói ficaram ainda mais evidentes depois que a Disney entrou no jogo com os filmes dos Vingadores e Cia. LTDA.

Cenas de ação magnânimas, com personagens carismáticos, diálogos muito bem escritos, com senso de humor, e dramas bem desenvolvidos (estamos falando da Disney, galera!) deixaram o público mais exigente em relação a filmes de super-heróis. Pode ser que a Disney tenha entrado tarde demais nesse meio, considerando que o primeiro Homem de Ferro saiu muito tempo depois do primeiro filme da Marvel da Fox e dos filmes da DC produzidos pelo Nolan, mas de repente ela se tornou referência. Veja o que acontece com cada filme da DC que é lançado hoje em dia.

Todos vivem sendo comparados aos da Disney, o que acaba por fazer com que filmes como Esquadrão Suicida sejam refilmados para que sejam mais bem humorados. Todos querem chegar ao mesmo produto final que Homem de Ferro, Capitão América, Os Vingadores e outros mostram ser – e inclusive repetir o mesmo número de bilheteria que esses filmes reproduzem, coisa na casa dos bilhões de dólares.



Os filmes da Marvel de responsabilidade da Fox sofriam do mesmo mal até então. Há algo neles que nos faz pensar na produção de novelas, que leva muito em conta a opinião do público nas escolhas que faz, a ponto de colocar a Mística como líder (?) dos X-Men, pelo simples fato de a atriz que dá vida à personagem, no caso a J-Law, ter de repente se tornado muito popular. O roteiro, eles justificam com mil viagens no tempo. Estão tão atentos ao que o público gosta que acabam por cometer o erro de repetir as mesmas fórmulas, imaginando que todos querem mais do mesmo (como repetir a famosa cena do Mercúrio correndo com música de fundo legal, que aconteceu nos dois últimos filmes do X-Men). Só não percebe que esses são erros muito amadores quem não quer, e os números falam por si só. O último filme dos X-Men, cujo nome é Apocalipse e eu fui obrigado a pesquisar no Google para me lembrar, passou tão despercebido que conheço poucas pessoas que assistiram. Foi o filme dos X-Men com o desempenho mais fraco, inclusive.
Será que foi isso que motivou as mudanças que foram feitas no filme de Logan? Talvez, pois aqui estamos falando de um filme que não se parece em nada com os seus antecessores, ainda que parte dos atores seja conhecida.

Estamos falando de um filme maduro não só em relação ao seu desenvolvimento, mas também ao público que visa. É também violento ao extremo, com cenas de drama muito densas, típicas de filmes antigos sobre máfia ou até aqueles de faroeste – essa sendo uma referência ainda mais óbvia, com direito a diálogos baseados em filmes clássicos desse tipo. Não há super introduções coloridas com super efeitos visuais, tampouco adolescentes atraentes zanzando pelo cenário e praticando feitiçaria vez ou outra. Aqui, temos um verdadeiro senhor de cabelos e barba branca, brincando de ser motorista de limusine de aluguel, enquanto tenta manter a salvo a vida daquele que lutou tanto por ele, mas que hoje está senil, por um motivo que o filme posteriormente explica: o Charles Xavier.


Nesse, não há nem metade do glamour que os filmes dos X-Men tinham, com suas instalações super decoradas e uniformes brilhosos, meios de transporte hipertecnológicos, nada do tipo. Mesmo a limusine que o Logan pilota é um pouco ultrapassada. A vida que Logan hoje leva é bastante sofrida, típica de um fugitivo, então a impressão que se tem é a de que ele está sempre sujo e que nunca lhe sobra dinheiro para as necessidades mais básicas. Nem sanidade ele parece ter. Já é bem difícil levar a vida que ele leva, considerando que sua “família” agora é apenas ele, Charles e um outro capanga mutante, que o ajuda a administrar os remédios que mantêm o Xavier com a cabeça no lugar, mas, em sua jornada, acaba por surgir a X-23, aqui retratada como uma garotinha de nome Laura, de origem latina (interessante, não?) e de poucas palavras. Laura se junta a Logan à força, com base em uma revelação que, a muitos, pode parecer chocante.

Com essa premissa, já é possível enumerar os acertos, que são inúmeros, a começar pelas atuações. Os filmes do X-Men não abriam muito espaço para um trabalho tão dedicado, considerando seu número de cenas de ação e o pouco embasamento histórico – e isso sem contar a pouca dedicação em adicionar drama às suas histórias. Aqui, temos aquele Hugh Jackman que tentou ganhar o Oscar com Os Miseráveis, com visual desgastado e atuação verossímil. Algo o está matando, e nós acreditamos nisso.



O próprio Charles Xavier está um pouco mais denso do que costumava ser. Antes, era apenas um senhor numa cadeira de rodas que mal mexia o pescoço quando se dirigia a alguém. Hoje, é um senhor recheado de conselhos para a vida e no meio de uma crise existencial tocante. Estamos diante de um personagem com o qual finalmente podemos nos importar, sem esperar que ele desembeste a usar seu poder em cenas de ação para o deleite dos nossos olhos. Xavier nunca esteve tão vulnerável quanto nesse instante.

Acho que esse é um bom ponto para mencionar Deadpool, que foi praticamente aquele que encorajou a Fox a fazer filmes mais violentos, sem medo de perder público por conta da censura, e isso precisa ser reconhecido, sim. Porém, preciso dizer que Logan, ainda que se aproveite desse encorajamento, fez um trabalho melhor que o do seu colega predecessor, ao adicionar personagens muito melhor desenvolvidos.

Claro que Deadpool não tinha intenção de emocionar ninguém, mas ele sofre do mesmo mal que toooooodos os outros filmes da Fox, que é o de colocar personagens conhecidos (ou não) em seu elenco principal, todos muito bem vestidos e com visual impecável, mas sem nenhuma fala relevante ou sequer com desenvolvimento. Menciono aqui, principalmente, as personagens femininas de Deadpool, que funcionam como capangas, com uma ou duas frases ditas. X-Men sempre fez isso com seus antagonistas, e não dá pra contar nos dedos a quantidade de mutantes conhecidos daqueles que acompanham os quadrinhos e/ou desenhos e que figuram em seus filmes, mas que surgem e desaparecem com a mesma rapidez, porque eles são muitos! O próprio Deadpool já foi um deles.


Logan evitou fazer isso. Nenhum – sim, nenhum – dos personagens que dá as caras aqui carece de desenvolvimento. Mesmo uma família que ele porventura encontra em seu caminho e que lhe oferece um jantar na própria casa deixa de ser desenvolvida. É possível se importar mesmo com esses estranhos sem nome, e o melhor: eles acabam tendo importância na história. Nos emocionamos com eles.

Tantos acertos tornam Logan um filme completo e excelente, digno dos aplausos em pé que recebeu em tantos festivais. É um bom encerramento para a saga do Wolverine, que tudo indica que não voltará a acontecer, e isso mencionando as palavras do próprio Jackman. Emociona de verdade, a ponto de fazer muitos chorarem no cinema (sem brincadeira) e também rir. Diverte com suas cenas de ação muito bem produzidas e coreografadas (afinal, estamos lá por causa delas também, né?) e acaba por destoar de todos os seus antecessores – tanto que, se você assistir Wolverine Imortal antes de assistir Logan, vai ficar se perguntando como é que as coisas chegaram àquele ponto. Mas essa falta de explicação não importa. Considere esse filme um filho único, se quiser. Vale o seu tempo e mostra como é possível, sim, fazer filmes bons quando esse é o desejo.

Imagens: 21st Century Fox


Monique Fernandes
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