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o dia em que eu não precisei de validação


Eu não sou perfeita. Não nasci em uma sociedade imaculada em que eu pudesse crescer e me desenvolver longe de preconceitos e estereótipos. Muitos desses conceitos errôneos de vida se infiltraram dentro de mim e se materializaram em forma de pequenas inseguranças que carrego até hoje.

O trabalho de desconstrução é muito extenso. Todos os dias, levanto e tento ser uma versão melhor do que era ontem. Tento lembrar que não existe nada - e muito menos ninguém - que controle minhas ações e decisões nesta vida. Ninguém deveria ter tanto poder sobre minha saúde, sonhos e vontade de viver a vida.

Resolvi escrever este texto, pois recentemente me vi em uma situação em que perdi o total controle de quem eu era. Deixei que um cara fizesse escolhas importantes no meu lugar e ainda sofro amargamente o preço de tamanha inocência.

Não sei se pelos meus problemas de imagem, ausência de figura masculina no crescimento ou qualquer outro problema mais oculto que deixarei para a minha terapeuta descobrir, mas a verdade é que precisei de constante validação

Eu sempre tive a mais plena consciência de minhas habilidades e talentos, todavia, era como se tudo fosse imaginário até o momento em que outra pessoa os reconhecesse em voz alta. Eu precisava ouvir um elogio, lutava pelo sim e chegava a ficar fisicamente mal toda vez que ninguém parecia perceber todo o meu esforço.

Essa necessidade de validação se transmutou em uma bizarra dependência. Quando finalmente me dei conta do que estava ocorrendo, eu deixava que o meu interesse amoroso mais recente tomasse todas as decisões por mim. Alguns exemplos das maluquices que fiz e passei nos últimos anos:

✪ Desisti de fazer Mestrado, pois um namorado disse que se eu queria estudar mais, era porque não levava nosso relacionamento a sério.
✪ Abandonei a ideia de morar em outro país, já que isso não estava nos planos do cara com quem eu queria estar pelo resto da vida.
✪ Troquei um emprego que eu gostava muito por um em que ganharia muito menos, a pedido de um rapaz que achava que sabia o que era melhor pra mim.



Essa lista poderia continuar por pelo menos mais uns cinquenta itens e eu só estaria cobrindo os últimos cinco anos da minha vida. O único denominador comum de todas essas situações é que sempre me arrependi.

O relacionamento terminava e com a ausência da minha muleta emocional, era capaz de ver a oportunidade que havia perdido e de tudo que havia sacrificado para agradar alguém que nem estava mais presente em minha vida. 
É de se pensar que com tais erros eu logo adquiriria certa experiência e nunca mais os repetiria, não é? Pois então, tal como eu disse logo no início do post: não sou perfeita e continuo presa no mesmo ciclo de autodestruição induzida por relacionamentos.

Quando eu tomei a decisão de retomar o controle da minha vida, não percebi de imediato que isso significa retomar o controle dos meus relacionamentos. Minha ideia do que é amor se perdeu ao longo do caminho e isso causou um dano ridículo ao meu amor próprio.

Creio que finalmente cheguei ao limite. Atravessei aquela linha invisível que me mantinha cega quanto aos problemas da minha autoestima inexistente. Eu finalmente tenho consciência do meu valor próprio e nenhum cara neste mundo será capaz de me fazer acreditar no contrário.

Pode ser que demore um pouquinho até que eu me ame sem precisar que mais alguém me ame simultaneamente. Pode ser que meu próximo relacionamento seja tão confuso e cheio de problemas quanto os anteriores.

Pode ser muita coisa. Mas o que definitivamente nunca mais será é: uma vida em que eu deixo que os outros tomem as decisões importantes. Uma vida em que eu preciso ouvir um sim só pra ter forças para levantar da cama. Uma vida em que eu duvido constantemente da minha importância.

Esta vida cheia de inseguranças acaba aqui e agora.
Mia Fernandes
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